6 hackativistas que tiveram suas histórias contadas em filmes / documentários

Hackers, diferente do diz o senso comum e a mídia, não são necessariamente criminosos cujo o crime mais atribuído à eles são “invasão de computadores”, hackers são pessoas muito habilidosas em suas áreas, que adoram desafios, que de maneira inteligente e subversiva, são capazes de resolver problemas complexos com abordagens pouco convencionais. Além disso, existe toda uma cultura hacker, onde os valores são pautados principalmente no livre acesso e compartilhamento do conhecimento.

Algumas pessoas extraordinárias levaram seus ideais até as últimas consequências, acreditando que todo conhecimento deve ser livre e que não só sistemas computacionais podem ser hackeado, mas o sistema político e econômico também, mesmo que para isso tiveram que pagar altos preços, alguns perdendo a liberdade ou até mesmo a própria vida.

Aqui listamos cinco dos maiores hackativistas contemporâneos que tiveram suas vidas e causas relatadas em documentários e filmes.

5 – Gottfrid Svartholm, Fredrik Neij, Peter Sunde e o Piratebay

Na internet pré Netflix e outros serviços similares de streaming, ter acesso a lançamentos e de filmes, música e outros conteúdos da grande indústria só eram possíveis por serviços P2P ou através de sites duvidosos, que eram constantemente derrubados pela justiça por infringirem direitos autorais. Os torrents, extensões de arquivos compatíveis com o protocolo BitTorrent, se tornou uma das opções mais populares de compartilhamento de arquivos no final dos anos 90 e meados dos anos 2000. Isso porque os torrents eram totalmente descentralizados, dificultando o rastreamento por parte das autoridades, mas que também dificultava que fossem encontrados pelos usuários, já que eram muitas vezes ocultados pelos buscadores tradicionais como o Google.

Foi ai que suecos Gottfrid Svartholm, Fredrik Neij, Peter Sunde resolveram criar o The Pirate Bay, o maior portal de busca de torrents já visto na internet. Para burlar as autoridades, a sacada era a seguinte: ao invés de hospedarem os conteúdos ou até mesmo os arquivos de torrent em seus servidores, eles apenas indexam os torrents disponíveis para busca, e disponibilizavam os download através de uma tecnologia chamada “link magnético”, onde o arquivo torrent, contendo os caminhos da rede P2P eram baixados direto da rede P2P daquele conteúdo.

The Pirate Bay – Away From the Keyboard

O documentário The Pirate Bay – Away from Keyboard conta a história a ascensão e queda do que foi considerado o portal de busca “Rei do Torrents”, e quais eram as motivações políticas e ativistas de seus criadores, trazendo todo um debate filosófico de que se as leis de direitos autorais são moralmente justas, ou impedem a propagação do acesso livre ao conhecimento.

4 – Chelsea Manning

Os EUA possui o histórico de se comportar como policia do mundo, realizando diversas intervenções militares em países cujo eles possuem interesses estratégicos para manter sua hegemonia econômica, mas com a alegação de que estão apenas ajudando a levar democracia. Apesar disso, suspeitas de abusos e ilegalidades são constantes, mas sem nenhuma confissão de culpa por parte do governo estadunidense.

Chelsea Manning é uma ativista protagonista de uma série de vazamentos de documentos secretos que ajudaram a denunciar e confirmar os abusos dos programas militares dos EUA. Antes de sua transição, Chelsea fez parte do exército estatunidense e foi declarada traidora pelos vazamentos.

XY Chelsea

O documentário XY Chelsea narra como ela teve acesso aos documentos e suas motivações. Também mostra toda sua luta por liberdade, pela mudança do sistema e pela causa LGBTQIA+.

3 – Aaron Swartz

Por que artigos acadêmicos, muitas vezes financiados com dinheiro público, ficam restritos a um grupo muito pequeno que podem pagar por eles? Por que mesmo depois de muitos anos da morte de seus autores, grandes corporações se apropriam dos direitos autorais e suas obras por tempo indefinido e ninguém faz nada? Por que governos podem favorecer grandes corporações, criando leis tão severas que torna qualquer pessoa que compartilhe seus conteúdos na internet como criminosos mais perigosos do que assassinos ou terroristas?

Aaron Swartz foi um garoto que desde muito cedo não aceitou se conformar com essas ideias. Aos 12 anos criou um portal de conhecimento colaborativo, muito parecido com que vinha anos mais tarde se tornar a Wikipédia, mais tarde também participou da criação do feed RSS, do Markdown e da organização do Creative Commons (CC). Aaron foi também forte opositor dos projetos de lei SOPA e PIPA, que propunham leis mais severas e desproporcionais para quem infringisse leis de copyright na internet.

O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz

The Internet’s Own Boy (O Menino da Internet), conta a curta história de Aaron Swartz, que cometeu suicídio, dentre outras coisas, pela pressão ocasionada pelo processo que respondia por compartilhar na internet, artigos acadêmicos privados dos servidores de sua universidade.

2 – Julian Assange e Wikileaks

O direito a privacidade é uma das pautas que mais vem sendo debatidas nos últimos tempos. A internet trouxe muitas facilidades e vem democratizando o acesso a comunicação, mas por outro lado, nossos dados ficam cada vez mais expostos e passiveis de serem usados indevidamente por grandes corporações e governos.

“Privacidade para os pequenos, transparência para os grandes”. Esta frase sintetiza o ideal defendido por Juliana Assange e seus colaboradores ao criarem o Wikileaks, uma organização sem fins lucrativos que publica em sua plataforma, documentos e vazados de governos e grandes corporações com o intuito de dar visibilidade a abusos e outras ilegalidades cometidos por eles.

Nós Roubamos Segredos: A história do Wikileaks

We Steal Secrets: The Story of Wikileaks (Nós Roubamos Segredos: A história do Wikileaks) é um documentário que conta a trajetória de Julian Assange na fundação do Wikileaks, com todos os desafios e consequências perigosas que veio ao enfrentar governos e grandes cooperações.

Abaixo listamos uma série de outros documentários produzidos sobre Assange e o Wikileaks, incluindo o “O Quinto Poder”, filme protagonizado pelo ator Benedict Cumberbatch.

RISK

WikeRebels

Wikileaks – USA against Julian Assange

O Quinto Poder

1 – Edward Snowden

Em 2010 o mundo ficou chocado com o conteúdo do vazamento de documentos secretos do governo dos EUA, que incluía a confirmação de programas avançados de vigilância em massas global e até mesmo espionagem de governos. A então presidente do Brasil, Dilma Rousseff e achanceler da Alemanha, Angela Merkel eram algumas das autoridades alvo dessas espionagem por parte do governo estadunidense.

Essas e muitas outras ilegalidades só vieram a luz graças a Edward Snowden, que ao participar de missões de espionagem como agente de inteligência da NSA, e ter acesso a documentos ultra secretos, decidiu abandonar por completo sua promissora carreira e toda sua vida estabelecida nos EUA, para publicar denunciar os programas de espionagem e vigilância em massa dos EUA, se tornando ofialmente um traídor de seu governo e tendo que receber asilo político na Rusia.

Citizenfour

Citizenfour é um documentário que narra todo o processo estabelecido para a publicação dos documentos secretos vazados por Snowden no site Wikileaks, e a série de reportem premiada produzida pelo jornalista Glenn Greenwald.

Snowden – Herói ou Traidor

Políticas de acesso à internet e inclusão digital no Brasil

Para contar a história da inclusão digital e das políticas de acesso à internet no Brasil, dentro dos momentos mais relevantes, vale encurtar o período para após o lançamento do PNBL (Plano Nacional de Banda Larga) em 2010, mesmo que antes ainda tenhamos as políticas de telecentros, pontos de cultura, GESAC , centro de recondicionamento de computadores e outras políticas do MEC, como o ProInfo, por exemplo.

O PNBL é fruto de amplo debate e discussão da integração de políticas de inclusão digital e de acesso, agregando várias vertentes, não só infraestrutura, mas, formação, inovação tecnológica, cultura digital e uso dos serviços de governo eletrônico.

Reunião da Campanha Banda larga é um Direito Seu com o Ministro das Comunicações com a pauta das políticas de acesso e o PNBL.
Reunião da Campanha Banda larga é um Direito Seu com o Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, com a pauta das políticas de acesso e o PNBL.

Vale também reforçar que um dos maiores problemas das políticas de inclusão digital e de acesso no país é a falta de ordenamento por lei, funcionando basicamente como programas de governo.  Tal fato levou o TCU a elaborar um diagnóstico sobre as políticas de banda larga no país, onde a maior evidência era a falta de planejamento e integração entre as políticas, ou seja, apesar dos esforços para a integração das políticas, isso de fato não ocorreu por não haver ordenamento legal forte para sua consolidação e em consequência da falta de ordenamento, o planejamento também não correu de forma concreta para que tais políticas fossem mais efetivas e eficientes.

Mesmo com todas estas dificuldades e um dispêndio de recursos públicos de altas somas, algumas políticas sobreviveram ao tempo, como o programa GESAC, que promove o acesso à internet em pontos que respondam aos requisitos do programa, como em localidades onde não há acesso disponível por serviços privados ou de interesse publico e comunitário sem as condições para aquisição do serviço.

Então voltemos ao PNBL, que em resumo, ao longo dos anos, para se reinventar, foi mudando de nome e mudando também suas regras infra legais através dos decretos presidenciais.

Esta política tinha como espinha dorsal a universalização do acesso à internet, revitalizando a Telebras para ser um dos braços fortes desta política, levando infraestrutura e o serviço a preços módicos tanto na oferta de atacado, através de redes de transporte de alta capacidade como eventualmente ofertar o serviço no varejo, em localidades sem o serviço ou com baixa competitividade, seja através dela mesma ou de parceiros.

Reunião com a assessoria da Presidência da Telebras sobre o PNBL.

Apesar da abertura de diálogo nos anos iniciais do PNBL, este sonho, desde o início já se mostrava distante e também ao longo do tempo a Telebras não conseguiu atender aos dispositivos no decreto, deixando ainda as localidades infoexcluídas no país a desejar.

Por fim, nos últimos anos, a Telebras conseguiu operacionalizar o satélite brasileiro, mesmo que com uma parceria estrangeira e com muita dificuldade.  Conseguiu ter a dispensa de licitação para demandas do poder público federal e viabilizar as políticas do GESAC, que agora tem novo nome fantasia – WiFi Brasil.

A nova política herdou os pontos do GESAC, se reinventando já com 13 mil pontos, onde 10 mil são de escolas publicas e o restante são algumas comunidades infoexcluídas no país, como quilombos, aldeias indígenas e outras comunidades tradicionais ou de periferia que atendam aos requisitos do programa federal.

Da nova política, o WiFi Brasil, havia uma promessa interessante, mas, que na prática acabou se limitando as conexões por satélite, ou seja, uma política que poderia agregar telecentros, pontos de inclusão digital e redes comunitárias como pontos de ampliação do acesso acabou morrendo na praia, pois, os links via satélite, além de terem uma qualidade inferior, a banda no programa ficou limitada a 20 Mbps.  A esperança é que num futuro próximo outra política possa se integrar a esta, como o Internet para Todos, permitindo que os links também possam ser via terrestre e que a banda disponibilizada possa ser maior, permitindo que o acesso seja compartilhado e ampliado nos territórios atendidos pela política.

Só para explicar, a política Internet Para Todos vinha com o objetivo da Telebras ofertar link de atacado para pequenos provedores e redes comunitárias com preços módicos e isenções fiscais a fim de reduzir os custos de acesso em localidades infoexcluídas.  Só que até agora esta política não funcionou devido aos problemas no CONFAZ para garantir as isenções fiscais.

Retornando ao PNBL e às políticas de acesso, temos ainda o programa de Cidades Digitais.  Política esta que também foi mal planejada e executada, tendo pelo menos um edital embargado pelo TCU e outros dois que desde 2013 só conseguiu implantar parcialmente um pouco mais do que 160 cidades.  A nosso ver esta política é essencial para a democratização e universalização do acesso, mas, como disse o TCU, sem planejamento e sem integração a falha é certa.  Só para dar um exemplo, o governo do Estado do Rio de Janeiro gastou aproximadamente 30 milhões de reais no programa Rio Estado Digital e a política toda foi praticamente para o limbo.  Em resumo o Ministério das Comunicações vem tentando mudar esta política tirando seu enfoque principal de criar infraestrutura pública e como bem comum, o que aparenta ser um grave erro, mas, teremos que ficar atentos e tentar intervir para que a política não caia de vez.

As políticas de acesso ligadas à educação conseguiram vingar ao longo do tempo, mas, sem controle efetivo algum, como por exemplo, o PBLE (Programa Banda Larga nas Escolas), que tinha por objetivo interligar todas as escolas urbanas do país tem seus indicadores mais furados do que peneira, onde já foram constatadas várias escolas ditas como conectadas e na real não havia a política implantada.  A falta de controle é tanta que existem escolas que têm políticas sobrepostas entre os níveis de governo.

Até agora este artigo parece mais um anúncio do apocalipse.  Pois é!!! Porque agora adentraremos no que existia de lei e o que está sendo mudando.  A LGT (Lei Geral de Telecomunicações) é um dos nortes para as políticas de acesso e em 2019, depois de anos de batalha, o lobby das teles levaram o bolo, praticamente acabando com a possibilidade dos serviços de interesse público existir e arrecadarem 121 bilhões de patrimônio público a preço de banana.  Na verdade ainda esta em disputa o valor a ser pago por este patrimônio, mas, o lobby continua forte. A verificar as cenas dos próximos capítulos.

Em consequência da mudança da LGT, veio à galope a mudança da Lei do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), que tem um montante contábil acumulado com mais de 22 bilhões de reais, que deveria ser investido na infraestrutura de serviços sob concessão (telefonia fixa) e nunca foi usado a contento.  Ahhhh, mas, o que a telefonia fixa tem a ver com políticas de acesso?  As operadoras usaram esta mesma infraestrutura para ofertar serviços em regime privado, que é o caso da banda larga e nada pagaram por isso.  O nome desta prática é subsidio cruzado, onde o uso de uma infraestrutura sob concessão pública estava sendo usada para fins privados, ou seja, a infraestrutura era para a telefonia fixa (concessão pública), mas, estava sendo usada pra banda larga e até telefonia móvel (autorização privada).

Por fim, temos o tão famoso leilão de espectro do 5G para a telefonia móvel.  É de praxe que nos leilões de espectro, feitos pela Anatel e analisados pelo TCU, venham com algumas regras e obrigações aos vencedores do certame.

Audiência Pública na Câmara dos Deputados sobre a situação da telefonia e internet no Brasil. Tema do leilão de 5G no Brasil.

Neste sentido, o leilão tem algumas falhas no sentido de que as obrigações não estão muito específicas, deixando em aberto pontos que podem vir a ser prejudiciais para a sociedade e um agravante de que a banda em 26Ghz, que é gigante, não tem obrigação nenhuma.

Existe um mito em volta do 5G de que será a solução de todos os problemas de exclusão digital no país com esta nova tecnologia.  Mito porque está se afirmando que parte das obrigações será levar acesso para localidades até 600 habitantes até 2029.  Vale lembrar que o modelo de negócio da telefonia móvel tem mecanismos predatórios e excludentes, que até hoje ainda criam desigualdades no acesso, gerando uma internet ara ricos, com acesso ilimitado e irrestrito; e outra para pobres com pacotes de dados insuficiente, limitação no acesso e qualidade precária, além de preços que ainda inviabilizam a sua universalização de forma plena e justa.

O resultado deste debate ainda não teve um desfecho total, onde propostas legislativas ainda ocorrem com certa frequência e ainda estão tramitando no congresso, mas, estamos numa fase crítica de se buscar um equilíbrio econômico para as mudanças legais que foram feitas e que, como dito, envolvem bilhões de reais e irão determinar quais tipos de políticas de acesso e inclusão digital teremos. O IBEBrasil é uma organização de ativismo digital e atua através de incidência política e regulatória sobre os temas de acesso à internet e inclusão digital no país, integrando ainda a Coalizão Direitos na Rede, que somam mais de 40 entidades que atuam na defesa dos direitos humanos e direitos digitais da sociedade brasileira.

Compilando firmware LibreRouterOS usando o Google Colab

O que são redes mesh?

Na construção de redes comunitárias é possível aplicar as mais diversas tecnologias e arquiteturas, mas sem dúvida a preferida pelos ativistas é a arquitetura de rede mesh (rede em malha). As redes mesh são extremamente flexíveis e resilientes, devido à sua arquitetura descentralizada. Cada nó (node) da rede, se conecta a um ou mais nós, formando uma malha onde os dados podem trafegar por diversos caminhos. Isso é excelente pois algum dos caminhos podem estar sobrecarregados ou estar indisponível momentaneamente, garantindo o funcionamento e maior disponibilidade possível da rede.

Exemplo de rede mesh

LibreRouter – um roteador livre para redes comunitárias

Os equipamentos encontrados no mercado para a construção de uma rede mesh são muito caros, pois são destinados para uso comercial ou de um mercado domestico de alto nível. A alternativa encontrada pela comunidade de desenvolvedores de software livre foi hackear roteadores domésticos simples, e através de engenharia reversa implementar um firmware alternativo que os permitiam se comunicar em malha. Este projeto ganhou o nome de LibreMesh.

Porem, nem tudo são flores. O mercado trabalha fortemente com o conceito de obsolescência programada, onde equipamentos que poderiam ter uma longa vida útil, ficam limitados a poucos meses de disponibilidade no mercado. Muitas vezes o desenvolvedor poderia levar vários meses até realizar toda a engenharia reversa de um equipamento, para que em pouco tempo não pudesse ser mais encontrado no para compra no mercado. Pensando em resolver esse problema a Altermundi e diversos colaboradores pelo mundo, desenvolveram não só um novo firmware baseado no LibreMesh, como também um roteador completamente novo, baseado em open hardware e software livre, projetado especificamente para atender as demandas de uma rede comunitária. Assim nasce o LibreRouter.

O LibreRouter possui uma configuração robusta e preparada para atender os principais desafios de uma rede comunitária. Mesmo tendo um novo firmware que é uma evolução do LibreMesh, o LibreRouterOS mantem a compatibilidade com diversos outros equipamentos domésticos como roteadores TP-Link, DLink, entre outros.

Para instalar a versão mais recente do LibreRouterOS, seja no próprio LibreRouter, seja em algum outro roteador compatível, é necessário “cozinhar” (compilar) você mesmo o firmware e depois “fritar” (instalar) no equipamento. Também é possível baixar um firmware já compilado por terceiro, por isso isso mantemos um repositório próprio que pode ser acessado aqui.

Compilar o firmware do LibreRouterOS pode não ser uma tarefa simples para iniciantes, por isso abaixo disponibilizamos um Google Colab Notebook, com o passo a passo para compilar seu próprio firmware. Você pode reproduzir os passos em seu próprio computador usando o sistema operacional GNU/Linux com as distribuições Debian ou Ubuntu, ou executar tudo na nuvem no próprio Google Colab e depois somente baixar o firmware pronto.

Um pequeno relato sobre a construção de redes comunitárias no contexto urbano

Uma certa vez em um seminário sobre redes comunitárias no SESC São Paulo, fiz uma apresentação dos aspectos territoriais da teoria de Milton Santos, tentei relacionar alguns de seus escritos com a construção de redes comunitárias.Logo após o evento, nos reunimos em um restaurante. Estava conversando com um amigo, desenvolvedor do libre Mesh, software utilizado hoje nas antenas nos projetos de redes comunitárias. Falamos sobre como os roteadores se comportavam, o que era um computador, a relação da técnica e as pessoas. Em determinado momento da conversa esse amigo disse: “eu comecei a acreditar que redes comunitárias em áreas urbanas a partir do projeto da Casa dos Meninos…”

Para contextualizando, a Casa dos Meninos é organização social, que trabalha com apropriação territorial, juventude e novas tecnologias na periferia da cidade de São Paulo. E desde 2010 projeta a construção de conteúdos locais através de uma rede comunitária.

Bom, com a Casa dos Meninos contextualizada, gostaria de voltar a fala desse amigo. Confesso que no momento em que ele disse isso, fiquei muito feliz, pois percebi que éramos uma referência. Mas ao passar dos anos, visitando projetos de redes comunitárias e ouvindo testemunhos, percebi que a maior parte das redes comunitárias são construídas em contextos rurais, principalmente para proporcionar conexão de internet em locais ainda com pouco ou nenhum sinal.

Agora voltemos ao contexto urbano, porque será que temos poucos projetos de redes comunitárias projetadas em áreas urbanas? Ou porque meu amigo não acreditava muito na construção delas nesses lugares? Será que se considera que rede comunitária se reduz a proporcionar conexão de internet onde ainda não há interesse comercial para isso? Será que tendo interesse comercial, como na cidade de São Paulo, o fluxo de conexão esteja mesmo resolvido?

Quando viajamos para lugares distantes, afastados das grandes cidades o risco de perda de sinal é recorrente, esta constatação idealiza que a cidade esteja em condições de conexão solucionadas. Porém isso não é real.

Hoje por exemplo temos as redes mesh, que permite a descentralização do sinal.

Os desafios de conexão para lugares como a cidade se diferenciam das áreas rurais, seja pela infraestrutura já montada das telecomunicações e também ocasionadas pelos tipos de barreiras, na zona rural, a presença de montanhas e árvores podem dificultar a passagem do sinal. Na cidade, principalmente nas periferias o desafio se apresenta diante de todas as formas da construção civil ou das autoconstruções.

As grandes corporações dispõem de infraestrutura caríssimas, instalações de torres em locais estratégicos da cidade, no intuito de viabilizar a fluição do sinal, e mesmo assim o que vemos é uma disponibilização precária de sinal em diversos locais, principalmente nas periferias. É recorrente encontrar reclamações de que determinada operadora funciona num local, mas não funciona num outro e assim por diante.

É importante chamar a atenção para esta situação, pois nos remete a refletir os desafios da construção do sinal pelos movimentos sociais, através das redes comunitárias. As barreiras físicas existentes dificultam ou por vezes inviabilizam a passagem do sinal. Diante de uma situação onde contamos com equipamentos domésticos para a instalação da rede comunitária, diferente do utilizado pelas grandes corporações.

Como então resolver essa questão? De princípio, tendemos a achar que antenas com mais potência (mais caras) resolveria ou então, sonhar com a instalação de grandes torres em lugares estratégicos. Essas alternativas caminham para a mesma lógica que as grandes corporações da telecomunicação já utiliza, isso é, requerem mais investimento financeiro, maior infraestrutura, que no caso já percebemos não ser capaz de resolver por completo a situação.

Pensar a reprodução do sinal no território urbano com extensas áreas com autoconstrução, que não são padronizadas ou previamente planejadas requer propostas audaciosas com soluções que não se limitem apenas ao aumento de investimento financeiro. Então o que nós propomos a pensar é quais outros possíveis caminhos devemos, enquanto rede comunitária, trilhar? É possível propor duas respostas para essa questão.

A primeira resposta pode ser encontrada no desenvolvimento técnico das redes comunitárias, há perspectiva tecnológica que vai na contramão da cultura da “posse”, do centralizado. Hoje por exemplo temos as redes mesh, que permite a descentralização do sinal. Todas as antenas instaladas com esse software são possíveis multiplicadores do sinal, caso uma antena deixe de funcionar, a rede vai buscar o sinal em uma outra antena mais próximo. Esse modo de funcionamento da rede possibilita que o sinal tenha maior probabilidade de afluição. A segunda resposta possível está na própria concepção das redes comunitárias. Quando se inicia um processo de construção da rede não se está querendo competir com as grandes corporações da telecomunicação, muito pelo contrário, neste processo o interesse é justamente superar necessidades e condições que as empresas não estão se dispondo a fazer.

As barreiras físicas existentes dificultam ou por vezes inviabilizam a passagem do sinal.

A construção da rede passa pela criação de sentido para as pessoas que ali moram, seja na apropriação técnica e na ampliação das possibilidades, sem limitar o acesso das pessoas a determinados aplicativos.Importante fazer um parêntese nesta questão, é frequente as operadoras de telecomunicação oferecer planos mais “baratos” para a população da periferia, onde ela apenas pode acessar ferramentas pré-estabelecidas como o WhatsApp ou facebook. Esse tipo de atuação vai na contramão das possibilidades existentes a partir da disposição tecnológicas existentes.

O caminho a se percorrer, mesmo que tortuoso, é na multiplicação do sinal por distancias curtas, de uma casa para outra, em um planejamento que requer envolvimento da comunidade. Perseguir a construção da malha a partir de infinitos pontos e não se deixar iludir pela implantação de grandes monumentos.