Oficina de matriz de escolha de tecnologias – Casa dos meninos

No dia 17 de Agosto o instituto Bem Estar Brasil foi convidado a facilitar uma dinâmica que marcou o início do projeto de formação continuada na Casa dos meninos. Para nos ajudar nessa tarefa, estudamos a metodologia de Matriz de escolha de tecnologias que nos foi apresentada pelo coletivo Redes AC em nossa visita a Cherán.

Nossa atividade começou na cozinha. Assim que chegamos, Fátima, a diretora financeira e desenvolvedora web da casa nos recebeu picando cebolas; começava a preparar o almoço. À medida que cada participante chegava para a reunião, mulheres e homens arregaçavam as mangas e se encaixavam em algum lugar da cozinha. Todas as tarefas foram rapidamente realizadas: passar café, chá de gengibre, picar legumes, fazer o arroz, feijão, frango, lavar louça, abre e fecha a geladeira… duas vizinhas chegaram com uma mistura pronta… Em meia hora havia almoço para mais de 20 pessoas.

Almoçamos todos juntos, os 15 participantes da atividade e outros moradores do bairro que se uniram à comilança. Durante o almoço a vizinha Maria, ex assistente social e presidenta da Casa dos meninos, dividiu relatos alegres de décadas passadas. Contou de meninos que frequentaram o orfanato nos anos 80 e que por vezes visitavam a casa. “Eu plantei aquela árvore com o Silva” ou “eu ajudei a fazer aquele banco”, diziam eles nesses momentos de recordação.

Sala de reunião Cleodon Silva – em homenagem ao influente líder sindical Brasileiro

Para nos ajudar a ficarmos ativos depois do almoço a educadora Cláudia puxou uma divertida dinâmica de aquecimento. Em meio a risadas e sapatos trocados, iniciamos a atividade daquela tarde.

O exercício envolveu todos os responsáveis pelo projeto de formação continuada em redes comunitárias, um grupo muito distinto e dedicado. De um lado estava presente a atual equipe fixa da casa e moradores interessados em apoiar o projeto, incluindo os 3 monitores bolsistas patrocinados pelo Instituto Bem estar Brasil. De outro lado estavam voluntários de outros bairros, 3 professores das frentes de audiovisual e desenvolvimento de software e demais amigos da Casa dos meninos.

O primeiro passo da Matriz de escolhas de tecnologia envolvia o resgate da memória da casa. Memória é um tema muito presente numa organização com mais de 50 anos de história, que nasceu como um orfanato de meninos e passou por tantas transformações. Não há um dia de atividades que esse passado de assistência social não seja mencionado, principalmente o nome de Cleodon Silva, ex-colaborador da casa e responsável por trazer a perspectiva da tecnologia para o trabalho com a juventude.

Considerando o pouco tempo que teríamos, propusemos uma linha do tempo resumida. Os participante escreveram 3 post its. Eles podiam escolher entre duas cores: azul para lembranças da Casa dos meninos e amarelo para momentos pessoais de transformação envolvendo tecnologia. Cada pessoa apresentou suas memórias e as colocou no ano em que pertenciam na linha do tempo.

O objetivo da atividade não foi mapear todas as atividades da Casa, mas contextualizar alguns momentos que os participantes consideravam vitais e iniciar o diálogo entre os voluntários/participantes externos com a comunidade.

Depois começamos a olhar para a Matriz de seleção de tecnologia, metodologia construída por Redes AC em seu trabalhos de comunicação com povos indígenas do México. O primeiro passo dessa metodologia é olhar para o presente; quem somos. Onde estamos. O que fazemos.

Dividimos em 3 grupos mistos combinando moradores da comunidade e convidados. Esse foi um importante momento de escuta para os voluntários, onde poderiam aprender sobre aquele território, suas características e desafios.

Grupo de discussão sobre o ponto de partida da comunidade

A Casa dos meninos é uma instituição urbana na periferia de São Paulo, por isso algumas categorias como ‘idioma’, ‘tradições’ e ‘biodiversidade’ estavam menos evidentes que em outros contextos. O jardim São Luis, bairro onde a Casa está inserida, divide muitas características com as outras periferias de São Paulo. São essas:

  • Grande concentração de pessoas (20.000 em 1km quadrado)
  • Casas originárias de ocupações
  • Violência urbana
  • Geografia com muitos morros
  • Presença de vários estilos de músicas como funk, forró, Rap, entre outros.

Também várias características particulares foram levantadas pelos moradores:

  • Uma grande presença de imigrantes do Nordeste, especialmente PE e BA
  • Relação mais próxima com movimentos sociais
  • Maior violência urbana com adolescentes
  • Falta de espaços de convivência em comparação com outros bairros, especialmente para jovens e idosos
Fase 1: Ponto de partida

O próximo passo foi nos reunirmos em grupo para conversar sobre os sonhos e objetivos da Casa dos meninos.

O que sonhamos?

“ A construção de uma referência jovem e comunitária, apropriada das novas tecnologias e sensibilizada para uma ação política/social. Uma indústria de construção de sentidos novos. A valorização do potencial individual e coletivo. Que a Casa dos meninos continue sendo um espaço de construção, de aprendizagem e de oportunidades.”

Fase 2: Como escolhemos a tecnologia?

O último passo foi pensar no projeto da rede de intranet como uma ferramenta para ajudar a alcançar esse sonho. É de entendimento dos participantes que o projeto de rede de intranet contribuiria com essa proposta, pois representa a “construção de um espelho sobre a comunidade que a reflete”. Com duas frentes integradas; técnica e política, seus objetivos principais foram apresentados como:

  • Colocar a rede em pé
  • Formação de jovens com pouco contato em serem produtores de tecnologia
  • Trabalho dos monitores como facilitadores e responsáveis por ajudar na documentação

A principal dificuldade antecipada nesse projeto foi como integrar as duas frentes com o objetivo de criar um uso da intranet que faça sentido. Algumas soluções propostas para isso foram:

  • Conteúdo relevante na rede
  • Afeto
  • Sensibilidade às demandas da juventude
  • Ter espaços de diálogo e formação entre os tutores/facilitares

Impressões dos participantes

Na avaliação final do exercício os presentes mencionaram que 4 horas foi pouco tempo para esse exercício e que sua fase final foi corrida. Porém todos relataram estarem inspirados para os desafios do projeto e agradecidos de fazer parte daquela equipe.

Nós do Instituto Bem estar Brasil ficamos muito felizes com o convite para facilitar essa atividade e ansiosos para os trabalhos de formação continuada com a juventude da Casa dos meninos!

“Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
e a liberdade pequena”

Ferreira Gullar

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