As três reações frente as tecnologias

Antena de Latina -Vitor Flynn

As novas tecnologias da informação e comunicação tem transformado o modo de vida de toda sociedade, e pode-se considerar que estas novas tecnologias, que são mais maleáveis, criam condições de apropriação por uma maior parcela da população. As tecnologias anteriores a essa, por exemplo as que proporcionaram a produção industrial, era de alto custo, necessitavam de grandes áreas, demandavam grande investimento para funcionar, como numa fábrica, com isso a possibilidade de apropriação tendeu a se reduzir a parcela da população com maior poder aquisitivo, afinal nada que é muito caro é possível ser disseminado em larga escala.

Então um dos aspectos radicais das novas tecnologias é a possibilidade de acesso a elas, mais do que as consumir, é possível produzi-las. A construção das redes comunitárias pode ser compreendida neste novo cenário.

Álvaro Vieira Pinto, importante filosofo brasileiro, dedicou parte de sua obra para pensar as novas tecnologias, em uma de suas obras nos sugere a fazer uma apropriação critica da tecnologia, afinal apenas a condição material não proporciona alterar a qualidade, é preciso haver uma vontade consciente do que se fazer com ela. A tecnologia em si, não é boa nem ruim, a questão é o que nós seres humanos fazemos com ela.

Ainda na obra do autor citado, ele diz que comumente temos 3 reações frente as novas tecnologias e essas precisam ser superadas, a primeira reação é de “embasbacamento/maravilhamento”, onde as pessoas tendem a achar que a nova tecnologia por si só irá resolver todos os problemas do mundo. A segunda reação esta em querer separar a tecnologia do homem, dicotomizar, por vezes colocando a tecnologia como inimiga do próprio homem, e por fim, a terceira reação é considerar a personificação como se a tecnologia em si fosse boa ou má, para ele a tecnologia é eticamente neutra.

O debate crítico da tecnologia se faz necessário para que possamos melhor compreender os desafios e sentidos na apropriação e desenvolvimento de uma rede comunitária. Sem esse debate, as perguntas e respostas sobre rede comunitárias tendem a ficar esvaziadas de sentido, muitas vezes reduzidas a questão monetária.

A tecnologia em si, não é boa nem ruim, a questão é o que nós seres humanos fazemos com ela.

Diante da possibilidade de apropriação do manusear, produzir, cria-se condição de questionar se o que está disponível responde as nossas reais necessidades. As ferramentas já prontas (comercializadas), a distribuição do sinal desigual, a pressão por consumo padronizados tipo Tik Tok, redes sociais etc, passam a ser questionadas. Será que em determinado local a necessidade seja outra? Outras ferramentas, outras relações de contato? O ‘poder-fazer” nossas redes, gera possibilidades múltiplas para além da reprodução da imposição comercial.

Numa fala de um grande militante das causas sociais, Cleodon Silva, ele dizia que a construção das redes comunitárias poderia recriar “territórios livres”. A apropriação e desenvolvimento dessas redes ainda não está dominada pelo capital, é possível construir espaços interligando pessoas, distribuindo diversos conteúdos, oferecendo conhecimentos necessários para alimentar os desejos de mudança da população. As novas tecnologias da informação e comunicação estão em disputada, e nós das redes comunitárias estamos brigando por elas.

Um pequeno relato sobre a construção de redes comunitárias no contexto urbano

Uma certa vez em um seminário sobre redes comunitárias no SESC São Paulo, fiz uma apresentação dos aspectos territoriais da teoria de Milton Santos, tentei relacionar alguns de seus escritos com a construção de redes comunitárias.Logo após o evento, nos reunimos em um restaurante. Estava conversando com um amigo, desenvolvedor do libre Mesh, software utilizado hoje nas antenas nos projetos de redes comunitárias. Falamos sobre como os roteadores se comportavam, o que era um computador, a relação da técnica e as pessoas. Em determinado momento da conversa esse amigo disse: “eu comecei a acreditar que redes comunitárias em áreas urbanas a partir do projeto da Casa dos Meninos…”

Para contextualizando, a Casa dos Meninos é organização social, que trabalha com apropriação territorial, juventude e novas tecnologias na periferia da cidade de São Paulo. E desde 2010 projeta a construção de conteúdos locais através de uma rede comunitária.

Bom, com a Casa dos Meninos contextualizada, gostaria de voltar a fala desse amigo. Confesso que no momento em que ele disse isso, fiquei muito feliz, pois percebi que éramos uma referência. Mas ao passar dos anos, visitando projetos de redes comunitárias e ouvindo testemunhos, percebi que a maior parte das redes comunitárias são construídas em contextos rurais, principalmente para proporcionar conexão de internet em locais ainda com pouco ou nenhum sinal.

Agora voltemos ao contexto urbano, porque será que temos poucos projetos de redes comunitárias projetadas em áreas urbanas? Ou porque meu amigo não acreditava muito na construção delas nesses lugares? Será que se considera que rede comunitária se reduz a proporcionar conexão de internet onde ainda não há interesse comercial para isso? Será que tendo interesse comercial, como na cidade de São Paulo, o fluxo de conexão esteja mesmo resolvido?

Quando viajamos para lugares distantes, afastados das grandes cidades o risco de perda de sinal é recorrente, esta constatação idealiza que a cidade esteja em condições de conexão solucionadas. Porém isso não é real.

Hoje por exemplo temos as redes mesh, que permite a descentralização do sinal.

Os desafios de conexão para lugares como a cidade se diferenciam das áreas rurais, seja pela infraestrutura já montada das telecomunicações e também ocasionadas pelos tipos de barreiras, na zona rural, a presença de montanhas e árvores podem dificultar a passagem do sinal. Na cidade, principalmente nas periferias o desafio se apresenta diante de todas as formas da construção civil ou das autoconstruções.

As grandes corporações dispõem de infraestrutura caríssimas, instalações de torres em locais estratégicos da cidade, no intuito de viabilizar a fluição do sinal, e mesmo assim o que vemos é uma disponibilização precária de sinal em diversos locais, principalmente nas periferias. É recorrente encontrar reclamações de que determinada operadora funciona num local, mas não funciona num outro e assim por diante.

É importante chamar a atenção para esta situação, pois nos remete a refletir os desafios da construção do sinal pelos movimentos sociais, através das redes comunitárias. As barreiras físicas existentes dificultam ou por vezes inviabilizam a passagem do sinal. Diante de uma situação onde contamos com equipamentos domésticos para a instalação da rede comunitária, diferente do utilizado pelas grandes corporações.

Como então resolver essa questão? De princípio, tendemos a achar que antenas com mais potência (mais caras) resolveria ou então, sonhar com a instalação de grandes torres em lugares estratégicos. Essas alternativas caminham para a mesma lógica que as grandes corporações da telecomunicação já utiliza, isso é, requerem mais investimento financeiro, maior infraestrutura, que no caso já percebemos não ser capaz de resolver por completo a situação.

Pensar a reprodução do sinal no território urbano com extensas áreas com autoconstrução, que não são padronizadas ou previamente planejadas requer propostas audaciosas com soluções que não se limitem apenas ao aumento de investimento financeiro. Então o que nós propomos a pensar é quais outros possíveis caminhos devemos, enquanto rede comunitária, trilhar? É possível propor duas respostas para essa questão.

A primeira resposta pode ser encontrada no desenvolvimento técnico das redes comunitárias, há perspectiva tecnológica que vai na contramão da cultura da “posse”, do centralizado. Hoje por exemplo temos as redes mesh, que permite a descentralização do sinal. Todas as antenas instaladas com esse software são possíveis multiplicadores do sinal, caso uma antena deixe de funcionar, a rede vai buscar o sinal em uma outra antena mais próximo. Esse modo de funcionamento da rede possibilita que o sinal tenha maior probabilidade de afluição. A segunda resposta possível está na própria concepção das redes comunitárias. Quando se inicia um processo de construção da rede não se está querendo competir com as grandes corporações da telecomunicação, muito pelo contrário, neste processo o interesse é justamente superar necessidades e condições que as empresas não estão se dispondo a fazer.

As barreiras físicas existentes dificultam ou por vezes inviabilizam a passagem do sinal.

A construção da rede passa pela criação de sentido para as pessoas que ali moram, seja na apropriação técnica e na ampliação das possibilidades, sem limitar o acesso das pessoas a determinados aplicativos.Importante fazer um parêntese nesta questão, é frequente as operadoras de telecomunicação oferecer planos mais “baratos” para a população da periferia, onde ela apenas pode acessar ferramentas pré-estabelecidas como o WhatsApp ou facebook. Esse tipo de atuação vai na contramão das possibilidades existentes a partir da disposição tecnológicas existentes.

O caminho a se percorrer, mesmo que tortuoso, é na multiplicação do sinal por distancias curtas, de uma casa para outra, em um planejamento que requer envolvimento da comunidade. Perseguir a construção da malha a partir de infinitos pontos e não se deixar iludir pela implantação de grandes monumentos.

É proibido compartilhar!

Alguns desafios na construção de redes comunitárias

Oficina de Redes Comunitárias – Casa dos Meninos

Ao iniciar a construção de uma rede wifi comunitária, no geral, o sentimento de animação dos envolvidos é grande. Essa animação por vezes refere-se à condição de se apropriar e dispor do acesso à internet que ainda é muito cara e precária em diversos locais das cidades.

No decorrer do processo, as dificuldades vão aparecendo, diversos obstáculos paralisam ou dificultam a caminhada desses coletivos, dentre os mais comuns, destaco três que tem se apresentado com maior frequência, sendo eles: a autossustentabilidade da Rede, a partilha de conhecimentos técnicos necessários para sua manutenção e o processo regulatório com as entidades governamentais.

O ato de compartilhar necessita estar atrelado a uma condição em que possamos colocar isso em prática.

Os três elementos mencionados acima precisam ainda de maior debate e resolução, porém queremos chamar a atenção para uma outra questão que nem sempre é destacada, mas que aparece e se relaciona com todo o debate da construção de redes comunitárias, esta questão se refere há alguns valores sociais e culturais que baseiam o debate e os interesses das redes comunitárias, como por exemplo a importância de valorizar o compartilhamento.

E o que é compartilhar? Se você for num site de pesquisa (pode ser o Google mesmo, fazer o quê né?– risos), ele dará um significado geral dessa palavra. Pode ir lá pesquisar…, eu espero…

Foi? E então, o que achou?

Ah, mas tem um adendo, se você acha que quando falo em compartilhar estou mencionando aquele botão que fica abaixo das publicações das redes sociais famosas, não é só sobre isso não.

Para começar podemos pensar, o quanto nós no dia a dia compartilhamos? Sejam bens materiais, conhecimentos, sabedorias… .

Atualmente cerca de apenas 50% da população mundial tem acesso à internet, porque? Quem escolhe quem tem acesso e quem não tem? Porque quem tem acesso não compartilha seu sinal com pessoas ao seu redor?

O ato de compartilhar necessita estar atrelado a uma condição em que possamos colocar isso em prática. Um exemplo possível é quando estamos na rua e precisamos descartar algum objeto (lixo) é muito mais possível que as pessoas joguem o lixo no lugar correto se tiver um local (lixeira) para esse descarte, senão fica só campo da intenção de cada um guardar o lixo ou jogar na rua.

E porquê valores como compartilhar, solidariedade e colaboração não estão presentes, ou melhor, pouco presente em nossas relações cotidianas? A sociedade atual prega valores muitas vezes contrários a isso, em todos os lugares somos chamados para relação de competição, individualismo, se fala muito sobre a meritocracia.

Então, o ato de compartilhar é algo muito distante do nosso cotidiano, nossas relações sociais e culturais não incentivam para isso. Atualmente cerca de apenas 50% da população mundial tem acesso à internet, porque? Quem escolhe quem tem acesso e quem não tem? Porque quem tem acesso não compartilha seu sinal com pessoas ao seu redor? As respostas podem ser múltiplas, com maior ênfase sugiro dizer que nossos valores de maior predomínio social inviabilizem essa prática de compartilhamento, mas não apenas isso, as condições materiais também são determinantes, exemplo disso são os bloqueios que muitos roteadores têm justamente para impedir ou prejudicar o compartilhamento do sinal.

Nesse sentido pensar numa cultura do compartilhamento, será preciso encontrar formas de superar valores que somente reproduzem as disputas e as desigualdades sociais. E criar condições necessárias para torná-los uma prática cotidiana.

E como fazer isso?

A reflexão sobre esse tema já é um bom começo. Necessitamos abrir o debate de onde possamos compreender que valores como a colaboração e a partilha possam ganhar mais do que as disputas, talvez esse seja um bom assunto para avançarmos nos coletivos de redes digitais.

O debate para construção de novos valores sociais e culturais, não é fácil, na relação técnica pode até ser possível trocar um sistema operacional de um roteador e fazer com que ele se comporte para partilhar o sinal wifi com meus vizinhos, mas, em nós humanos, como “instalamos” um “software” da colaboração e da partilha?