5 Softwares Livres mais úteis para serviços locais em redes comunitárias usando YunoHost

Uma rede comunitária é uma infraestrutura de rede, com Internet ou não, construída e gerenciada pela própria comunidade. Existem diversos modelos de gestão, arquiteturas e fins para essas redes, mas para todas é possível disponibilizar para os usuários diversas ferramentas e serviços digitais locais que muitas vezes independem da disponibilização de um link de Internet. Em sua grande maioria, são aplicativos disponibilizados sob licenças de Código Aberto (Open Source) ou de Software Livre (Free Software) que garante o uso livre para qualquer fim e a possibilidade de adaptação se necessário, já que o código-fonte da aplicação está disponível para qualquer um.

Como eu disponibilizo essas ferramentas para os usuários de uma rede comunitária?

Para a disponibilização destes serviços locais será necessário um computador que será utilizado como servidor local. Quanto mais recursos como HD, Memória RAM e CPU estiver disponível, mais aplicações podem ser disponibilizadas e mais usuários poderão ter acesso simultaneamente.

Nem sempre é uma tarefa simples instalar e realizar a gestão dessa aplicações, muitas delas vão demandar conhecimentos técnicos avançados de administração de servidores Linux. Para técnicos ou técnicas comunitários(as) iniciantes, isso pode ser um desafio e tanto, e para os(as) experientes, pode ser complexo realizar a gestão de um grande número de aplicações diferentes.

Com a proposta de facilitar a instalação, gestão e manutenção de servidores locais com aplicações baseados em Software Livre existe o projeto YunoHost, que se auto define em uma tradução livre como:

“um sistema operacional livre com o objetivo de simplificar a administração do servidor e democratizar a auto-hospedagem.”

Com o YunoHost, você instala um sistema operacional baseado no Debian com um painel administrativo web que permite de maneira muito fácil e intuitivo instalar e configurar diversas aplicações e serviços que poderão ser disponibilizados na rede. São dezenas de aplicações disponíveis em seu catalogo, e aqui listo o top 5 que considero as mais úteis e venho utilizando recentemente:

5 – Calibre-web

Uma alternativa al Trello para organizar tarefas

Um gerenciador bem completo de material bibliográfico, incluindo revistas, livros, artigos acadêmicos e outros. Com ele você pode catalogar materiais impressos ou digitais, e disponibilizar para download os digitais.

Com ele você pode montar uma biblioteca virtual para comunidade que podem ser acessados independente da disponibilização de um link de internet.

4 – Wekan

Uma alternativa al Trello para organizar tarefas

Se você já utilizou o serviço privativo Trello para organizar tarefas e outros conteúdos, vai gostar do Wekan. O Wekan possuiu praticamente todos os principais recursos do Trello e uma aparência muito similar, porem é baseado em Software Livre. Tanto o Trello como o Wekan se baseiam na técnica japonesa de Kanban, que são quadros com colunas e cartões que se movem entre eles, indicando em que etapa de um processo aquele cartão se encontra. Um cartão pode representar uma atividade, um conteúdo em produção ou qualquer outra coisas que precisar.

Com o Wekan você pode gerenciar atividades da sua rede comunitária, tais como: manutenção de equipamentos, novas instalações, reuniões, entre outros.

3 – PeerTube

Uma alternativa descentralizada ao YouTube

Certamente você já deve ter assistido algum vídeo hospedado no YouTube, que é um serviço gratuito porem privativo e cheio de anúncios disponibilizado pelo Google. Imagina ter um “YouTube” que funciona localmente, sem depender de internet, onde os usuários da rede podem subir qualquer vídeo que fica disponível para todos poderem assistir? Essa é a proposta do PeerTube!

O PeerTube permite também, quando disponibilizado em uma rede com link de internet, fazer parte de uma rede global, se conectando à outras instalações de PeerTube pela internet, permitindo que usuários de todo o mundo compartilhe seus vídeos. Simplificando: você instala o PeerTube em seu servidor local, hospeda localmente os vídeos e pode opcionalmente acessar outros vídeos que não estão hospedados no seu servidor. É simplesmente fantástico!

2 – Nextcloud

Compartilhamento de arquivos e outras ferramentas colaborativas

Diversos serviços de compartilhamento de arquivos em cloud, ou simplesmente nuvem, ficaram populares na internet, entre eles o Google Drive, o Dropbox e o Microsoft OneDrive. O Nextcloud é uma aplicação em software livre que permite você criar em seu próprio servidor um serviço de compartilhamento de arquivos em nuvem, semelhante aos serviços citados.

Mais do que apenas compartilhar arquivos, você pode instalar diversas outras aplicações integradas, que permitem o trabalho colaborativo sem a necessidade de instalar nada no computador dos usuários. Entre as aplicações integradas, destaco o OnlyOffice, uma suíte de escritório online, semelhante ao LibreOffice ou ao Microsoft Office que funciona completamente através do navegador de internet, disponibilizando ferramentas de educação de texto, planilha, apresentações, entre outras.

1 – WordPress

Crie sites, blogs, portais comunitários, e-commerce, redes sociais e muito mais

A aplicação mais utilizada em mais versátil dessa lista certamente é o WordPress. O WordPress é o CMS (Sistema de gerenciamento de conteúdo) mais utilizado da internet, e isso se deve muito a sua facilidade e flexibilidade e uso, já que pode receber plugins que expandem suas funcionalidades, permitindo criar desde simples sites e blogs, até completas lojas virtuais (e-commerce) e redes sociais.

A rede comunitária ser seu próprio canal de comunicação, como por exemplo um portal comunitário criado em WordPress, vai facilitar muito a comunicação com e entre os usuários da rede, como ajudará a divulgar as ações do projeto ao o resto do mundo.

Conclusão

Vimos aqui 5 das mais úteis aplicações que podemos disponibilizar como serviços locais para os usuários de uma rede comunitária. Todas as aplicações podem ser instaladas manualmente ou através do YunoHost, que vai facilitar e muito a sua vida como técnico ou técnica comunitário(a). Esses são apenas uma pequena fração das aplicações em software livre disponível para a instalação no catalogo do YunoHost, e uma lista completa das aplicações podem ser consultas aqui.

Quais aplicações seriam úteis para os usuários da rede comunitária na qual você faz parte? Deixe nos comentários a sua resposta.

É proibido compartilhar!

Alguns desafios na construção de redes comunitárias

Oficina de Redes Comunitárias – Casa dos Meninos

Ao iniciar a construção de uma rede wifi comunitária, no geral, o sentimento de animação dos envolvidos é grande. Essa animação por vezes refere-se à condição de se apropriar e dispor do acesso à internet que ainda é muito cara e precária em diversos locais das cidades.

No decorrer do processo, as dificuldades vão aparecendo, diversos obstáculos paralisam ou dificultam a caminhada desses coletivos, dentre os mais comuns, destaco três que tem se apresentado com maior frequência, sendo eles: a autossustentabilidade da Rede, a partilha de conhecimentos técnicos necessários para sua manutenção e o processo regulatório com as entidades governamentais.

O ato de compartilhar necessita estar atrelado a uma condição em que possamos colocar isso em prática.

Os três elementos mencionados acima precisam ainda de maior debate e resolução, porém queremos chamar a atenção para uma outra questão que nem sempre é destacada, mas que aparece e se relaciona com todo o debate da construção de redes comunitárias, esta questão se refere há alguns valores sociais e culturais que baseiam o debate e os interesses das redes comunitárias, como por exemplo a importância de valorizar o compartilhamento.

E o que é compartilhar? Se você for num site de pesquisa (pode ser o Google mesmo, fazer o quê né?– risos), ele dará um significado geral dessa palavra. Pode ir lá pesquisar…, eu espero…

Foi? E então, o que achou?

Ah, mas tem um adendo, se você acha que quando falo em compartilhar estou mencionando aquele botão que fica abaixo das publicações das redes sociais famosas, não é só sobre isso não.

Para começar podemos pensar, o quanto nós no dia a dia compartilhamos? Sejam bens materiais, conhecimentos, sabedorias… .

Atualmente cerca de apenas 50% da população mundial tem acesso à internet, porque? Quem escolhe quem tem acesso e quem não tem? Porque quem tem acesso não compartilha seu sinal com pessoas ao seu redor?

O ato de compartilhar necessita estar atrelado a uma condição em que possamos colocar isso em prática. Um exemplo possível é quando estamos na rua e precisamos descartar algum objeto (lixo) é muito mais possível que as pessoas joguem o lixo no lugar correto se tiver um local (lixeira) para esse descarte, senão fica só campo da intenção de cada um guardar o lixo ou jogar na rua.

E porquê valores como compartilhar, solidariedade e colaboração não estão presentes, ou melhor, pouco presente em nossas relações cotidianas? A sociedade atual prega valores muitas vezes contrários a isso, em todos os lugares somos chamados para relação de competição, individualismo, se fala muito sobre a meritocracia.

Então, o ato de compartilhar é algo muito distante do nosso cotidiano, nossas relações sociais e culturais não incentivam para isso. Atualmente cerca de apenas 50% da população mundial tem acesso à internet, porque? Quem escolhe quem tem acesso e quem não tem? Porque quem tem acesso não compartilha seu sinal com pessoas ao seu redor? As respostas podem ser múltiplas, com maior ênfase sugiro dizer que nossos valores de maior predomínio social inviabilizem essa prática de compartilhamento, mas não apenas isso, as condições materiais também são determinantes, exemplo disso são os bloqueios que muitos roteadores têm justamente para impedir ou prejudicar o compartilhamento do sinal.

Nesse sentido pensar numa cultura do compartilhamento, será preciso encontrar formas de superar valores que somente reproduzem as disputas e as desigualdades sociais. E criar condições necessárias para torná-los uma prática cotidiana.

E como fazer isso?

A reflexão sobre esse tema já é um bom começo. Necessitamos abrir o debate de onde possamos compreender que valores como a colaboração e a partilha possam ganhar mais do que as disputas, talvez esse seja um bom assunto para avançarmos nos coletivos de redes digitais.

O debate para construção de novos valores sociais e culturais, não é fácil, na relação técnica pode até ser possível trocar um sistema operacional de um roteador e fazer com que ele se comporte para partilhar o sinal wifi com meus vizinhos, mas, em nós humanos, como “instalamos” um “software” da colaboração e da partilha?

5 documentários brasileiros sobre a internet

A internet está recheada de produções internacionais que documentam diversos momentos históricos e temas relacionados a própria internet, a maioria tem como produtores ou patrocinadores gigantes como Discovery Chanel, BBC e Netflix, mas há também produções menores independentes. Mas você sabia também há produções documentais nacionais de excelente qualidade e relatam e trás ao debate diversos temas relacionados a internet dentro de uma perspectiva da realidade brasileira?

Aqui listamos cinco documentários, sem dois eles web série, que contam momentos históricos da internet brasileira ou debate temas relacionados.

5 – Se tá na Internet, é verdade!

“As mentiras e rumores sempre existiram e foram difundidas na sociedade. Com a Internet e as redes sociais tornou-se expressivo a transmissão e criação de notícias falsas, as denominadas fake news. O documentário “Se tá na internet, é verdade” busca compreender o fenômeno social da massificação de notícias falsas no ambiente digital e os impactos na vida contemporânea.”

“Esse projeto foi realizado pela Astúcia, uma produtora de conteúdo acadêmica como parte de um Trabalho de Conclusão de Curso dos alunos de Rádio, TV e Internet da Universidade Metodista de São Paulo – Campus Rudge Ramos.”

Fonte: Canal Astúcia Produções

4 – Juventude conectada

“Com produção de Laís Bodanzky e da Buriti Filmes, o documentário é inspirado na pesquisa Juventude Conectada da Fundação Telefônica Vivo, correalizadora do projeto. A série tem quatro episódios – “Ativismo”, “Comunicação Democrática”, “Empreendedorismo” e “Educação”-, com 26 minutos cada…”

“Em comum entre os capítulos está a forma com que jovens conscientes e criativos exploram as possibilidades da era digital para defender suas causas, reinventar modelos econômicos e transformar sua realidade e a do mundo. Líderes de uma nova cultura, eles inspiram e protagonizam uma verdadeira revolução global. “Enquanto debatemos a sobrevivência das mídias tradicionais, a queda vertiginosa das vagas no mercado de trabalho e formas de patrocínio e incentivo cultural, por exemplo, nossos jovens não esperam. Eles estão se apropriando do que existe de mais novo em termos de tecnologia e comunicação para procurar novos caminhos e propor mudanças e melhorias para o mundo”, conta Bolognesi. Diretor da premiada animação “Uma História de Amor e Fúria” e roteirista de grandes sucessos como “Bicho de Sete Cabeças” e “As Melhores Coisas do Mundo”.”

Fonte: UNDIME

3 – Meio século de internet e Futuro da internet

“Ao completar 50 anos, a internet é vista como estímulo principal à criação de um mundo digital que só era conhecido por meio da ficção científica. A temática futurista já estava presente na literatura do russo naturalizado americano Isaac Asimov, em obras como Eu, Robô, que foi escrita nos anos 50 e ainda serve de referência para a crescente indústria da robótica. Asimov imaginou leis para a boa convivência do homem com as máquinas: a principal delas é que o robô jamais poderá agir contra os interesses e a segurança da humanidade. A inteligência artificial que teve início em 1954, nos Estados Unidos, hoje dá voz e movimentos a equipamentos eletrônicos e carros autônomos. O mundo do big data, dos algoritmos e a segurança de dados são os principais temas abordados no documentário “Meio Século de Internet”, produzido pela TV Justiça.”

Fonte: TV Justiça

“Em mais um Documentário sobre a internet, a TV Justiça entrevista especialistas que arriscam falar sobre o futuro do mundo em rede e como a automação de rotinas e a robotização vão influenciar o mercado de trabalho. Segundo o cientista chinês Kai-Fu Lee, criador da Inteligência Artificial, a metade das profissões que conhecemos hoje devem desaparecer até 2035. O aprendizado profundo das máquinas não terá limites após a captura de todos os dados pessoais disponíveis nas redes sociais e nos arquivos oficiais. Para ele, o Big Data veio para ficar.”

Fonte: TV Justiça

2 – XPLOIT: Internet Sob Ataque

“A mini-série Xploit, que é uma realização da TVDrone / Actantes em associação com a Heinrich-Böll-Stiftung e apoio da Rede TVT, pretende abordar uma guerra silenciosa que acontece longe dos PCs, laptops e dispositivos móveis mas cujo o resultado interfere diretamente em nossas vidas online e offline. Contando com a ajuda de um seleto grupo de entrevistados como o co-criador do sistema GNU Richard Stallman, o jornalista James Bamford, a advogada Flávia Lefèvre, a jornalista Bia Barbosa, a cientista social Esther Solano e o sociólogo e cyberativista Sérgio Amadeu da Silveira a série introduz o espectador nas disputas políticas políticas e econômicas que resultarão consequencias diretas em nossos diretos essenciais dentro e fora do mundo digital.”

Fonte: TVDrone WebTV

1 – Freenet

“Quem governa a rede? Com quais interesses e com quais consequências? Será que somos mesmo livres para acessar conteúdo? Sua privacidade está garantida? Quais direitos humanos são desrespeitados quando a estrutura democrática da internet é ameaçada? Quem garante o direito de todos os cidadãos a uma conexão rápida e de baixo custo?

freenet? é um filme documentário colaborativo sobre o futuro da liberdade na Internet. Seu objetivo é trazer a realidade dos bastidores da internet para o centro do debate global de forma participativa e envolvente, e através da produção e intercâmbio de conteúdo visual, sensibilizar e trazer informações para aqueles que mais sofrem as consequências das últimas mudanças nas políticas de internet: os usuários da rede.

O documentário é uma realização de quatro entidades brasileiras comprometidas com o debate de liberdade e defesa de direitos na rede: Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Centro de Tecnlogia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (CTS/FGV), Instituto Nupef e Intervozes.”

Fonte: Intervozes

https://youtu.be/TSomRix04fQ

Como a franquia de dados lesa o direito do consumidor

O acesso à internet é um direito fundamental, mas, devido um contexto cultural por ter sido disponibilizada como serviço de consumo em meados dos anos 90, a dificuldade das pessoas em identificarem este serviço essencial como um direito é complexo apesar da percepção de que sem ela a vida em sociedade está cada dia mais difícil, ampliando o abismo das desigualdades no país.

Neste contexto podemos abordar neste artigo os aspectos da disponibilidade e da qualidade do serviço inerentes aos grandes atores do setor de telecomunicações que ofertam o serviço de banda larga no Brasil.

De certo não será possível aprofundar todos os temas relacionados a esta pauta, mas, iremos destacar alguns pontos relevantes neste cenário, como: a) a prática abusiva da franquia de dados atrelada com o zero rating; b) a lesa ao consumidor pela falta de transparência e controle ao se debitar o acesso à internet da franquia de dados dos usuários;  e c) a atenção necessária para os contratos de banda larga no país para se evitar os abusos contra os direitos dos consumidores;

* Franquia de dados (Banda Larga Móvel) como prática que fere o MCI e o CDC

Quebra da neutralidade da rede pelo zero rating

Primeiro vale explicar o que é o zero rating, ou seja, a prática de beneficiar determinados serviços e plataformas em detrimento de outros dentro do modelo da franquia de dados.  Então aqui temos de forma bem clara uma prática que seduz o consumidor ao ofertar determinados serviços e plataformas de forma “gratuita” dentro do plano de franquia de dados, onde tais acessos não abateriam de seus créditos.

Na lei do Marco Civil da Internet, está claro que discriminar pacotes de dados através de acordos comerciais com provedores de aplicativos é proibido, mas, mesmo assim o modelo continua. Então o Zero Rating além de prática anticoncorrencial e quebra da neutralidade da rede, está criando uma bolha onde usuários mais vulneráveis não tem acesso a diversidade que a internet promove, gerando um efeito cascata de degradação desta diversidade ao mesmo tempo em que fortalece os jardins murados das big techs.

Principio da continuidade e o bloqueio de serviços essenciais após término de franquia

As práticas abusivas dos modelos de acesso à banda larga móvel, via franquia de dados, se colocam contra princípios aplicados aos serviços essências, assim como está firmado no Marco Civil da Internet.  No caso abaixo destacamos um dos artigos contratuais da empresa NET/Claro, onde este princípio está sendo ferido.

Contrato SMP NET/Claro

4.2.1 Ainda, para o Plano de Serviço que contemple serviços de dados com bloqueio ao término da franquia, o ASSINANTE declara ter avaliado suas necessidades de tráfego de dados e velocidade de conexão, e optado pelo plano escolhido, estando ciente, desde já, que ao término da franquia inicialmente contratada, ocorrerá o bloqueio da navegação até o final daquele ciclo de faturamento, devendo o ASSINANTE contratar franquias adicionais para utilização até o término do ciclo vigente.

Fica evidente a criação de um modelo com base na escassez artificial de infraestrutura para perpetuar uma prática que lesa o usuário e aumenta consideravelmente os lucros das operadoras.

Franquia de dados como discriminação econômica ao se reduzir a velocidade após termino da franquia (inviabilidade do serviço)

Outro caso de prática abusiva é a redução de velocidade após término da franquia para velocidades que inviabilizem o serviço, deixando o cidadão praticamente sem acesso à internet, como no caso abaixo.

Contrato SMP OI

17.2 Os Planos Oi Internet Pra Celular e Oi Internet Móvel possuem limite de tráfego de acordo com a franquia contratada. Caso haja consumo mensal excedente ao tráfego máximo de sua franquia, a taxa de transmissão de dados será reduzida para até 64Kbps.

Oque diz o MCI? (Lei 12.965/14 e Decreto 8.771/16)

Em seu art. 3º, que disciplina o uso da internet no Brasil, já garante que a preservação da neutralidade da rede, ou seja, que o trafego não deve ser degradado ou discriminado fora das regras estabelecidas na lei, que por sua vez só deve ser feito de forma excepcional e em casos de emergência.

No art. 7º já afirma o acesso à internet como serviço essencial ao cidadão, garantindo seus direitos e já fala que a suspensão do acesso só deve ocorrer em caso de inadimplência.  Afirma também que a qualidade do serviço deve ser mantida, ou seja, não pode haver redução de velocidade, por exemplo.  Diz que os contratos devem ter informações claras e completas, inclusive sobre as práticas de gerenciamento da rede que possam afetar a qualidade do serviço.

No art. 9º a questão é técnica e já diz que o responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação e ainda determina o seguinte:

A discriminação ou degradação do tráfego será regulamentada nos termos das atribuições privativas do Presidente da República e ainda afirma que as práticas comerciais devem oferecer serviços em condições comerciais não discriminatórias e abster-se de praticar condutas anticoncorrenciais.  Termina ainda falando que na provisão de conexão à internet, onerosa ou gratuita, bem como na transmissão, comutação ou roteamento, é vedado bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de dados, fora oque estiver disposto na lei.

No decreto, vale destacar este reforço à lei:

Art. 9º Ficam vedadas condutas unilaterais ou acordos entre o responsável pela transmissão, pela comutação ou pelo roteamento e os provedores de aplicação que:

I – comprometam o caráter público e irrestrito do acesso à internet e os fundamentos, os princípios e os objetivos do uso da internet no País;

II – priorizem pacotes de dados em razão de arranjos comerciais;

Então em primeiro lugar fica explicita a quebra de neutralidade da rede, determinada tanto na lei quanto no detalhamento pelo decreto presidencial, onde não se podem priorizar pacotes de dados em razão de arranjos comerciais com provedores de aplicativos, mantendo uma internet única, de natureza aberta, plural e diversa, compreendida como um meio para a promoção do desenvolvimento humano, econômico, social e cultural, contribuindo para a construção de uma sociedade inclusiva e não discriminatória, garantindo a preservação do caráter público e irrestrito do acesso à internet e os fundamentos, princípios e objetivos do uso da internet no País. Esta mesma prática ainda gera uma concorrência desleal para novos entrantes, que não tem o mesmo poder econômico de grandes empresas de plataformas e serviços digitais para terem suas aplicações privilegiadas no acesso. O segundo aspecto abusivo está no modelo em si e na omissão de como ele lesa o consumidor não só pela falta de transparência e controle do que está consumindo sua franquia como também o fato de que boa parte dos dados que estão sendo abatidos da sua franquia não permite ao usuário seu bloqueio. Neste sentido o Art. 7º do decreto já explicita que o provedor deverá adotar medidas de transparência para explicitar ao usuário os motivos do gerenciamento que implique a discriminação ou a degradação do acesso, de acordo com o exposto no Art. 4º. do mesmo decreto.  Este artigo é relevante inclusive para compreender de que forma este gerenciamento deve ser feito quando houver a necessidade de discriminação ou a degradação de tráfego, dizendo ainda que são medidas excepcionais e ainda cita quais aplicações devem ser feitas, conforme dito nos incisos do §1º., ou seja, nada tem a ver com beneficiamento de acordos comerciais, como é o caso do zero rating, que vale ressaltar, só existe porque existe a franquia de dados no atual formato.  Neste sentido vale esclarecer também que a inadimplência não ocorre ao fim da franquia de dados, visto que o plano é pago seja ele mensalmente (pós-pago) ou nas promoções dos planos pré-pagos, ou seja, a franquia é só um artifício para que o usuário tenha que pagar mais do que o próprio plano de acesso.

Franquia de dados e o CDC

Falta de publicidade e transparência na informação sobre a franquia de dados (propaganda e contratos)

Assim como no MCI, o CDC também deixa claro que os modelos de negócio dos serviços ofertados precisam ser claros e transparentes para os consumidores, oque já vimos que não ocorre, pois, em nenhum plano você verá de forma explícita de que sua franquia está sendo abatida por dados dos quais o consumidor não autorizou ou até mesmo que se tenha o conhecimento do que está sendo abatido.

Falta de controle efetivo de como o acesso é abatido da franquia

A consequência da falta de conhecimento do consumidor sobre como são abatidos os dados de sua franquia revela ainda algo pior, que é a falta de mecanismos técnicos que possam dar ao consumidor o controle do que está se abatendo de sua franquia.

Este problema já gera algumas multas aplicadas às operadoras pela Anatel e o TCU já determinou à agência que crie os mecanismos corretos para garantia dos direitos dos usuários dos serviços de acesso à internet, porém até agora nada foi resolvido e continuamos a ser lesados ao pagarmos por dados abatidos em nossas franquias sem ter o total conhecimento e controle do que está sendo abatido de fato.

Este artigo tem o objetivo de promover informações que ajudem aos internautas, principalmente os que utilizam planos com franquia de dados a buscarem seus direitos, visto que, conforme exposto, estão sendo lesados em seus direitos ao pagar por dados abatidos em suas franquias sem haver nenhum tipo de transparência e controle do que está sendo feito.

Ficamos a disposição de ajudar a compreender melhor o tema e caso queira é só comentarem o artigo com duvidas e sugestões para que possamos avançar na garantia dos direitos dos usuários e para a universalização do acesso à internet como direito fundamental de todos e todas.